COMPORTAMENTOS SUICIDAS EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

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O comportamento suicida é uma ação destinada a ferir a própria pessoa e inclui gestos suicidas, tentativas de suicídio e o suicídio consumado. Ideação suicida são os pensamentos e os planos sobre suicídio. Tentativas de suicídio são atos de automutilação que podem resultar em morte.

Em um estudo feito no Brasil, analisando o período de 2002 a 2012, a taxa de suicídio aumentou cerca de 40% na faixa etária de 10 a 14 anos, o que é muito preocupante.

O suicídio geralmente está relacionado a questões emocionais e psicológicas. Mas também existe a influência dos fatores sociais, econômicos, biológicos e culturais. Além disso, os pesquisadores têm sugerido a limitada aptidão das crianças e pré-adolescentes para a resolução de problemas.

Fatores de risco para suicídio nas fases da infância e da adolescência

A ideação suicida nem sempre dá origem a um comportamento suicida, mas ela é um fator de risco para o comportamento suicida. Diversos fatores normalmente interagem antes de a ideação suicida se tornar um comportamento suicida. Frequentemente existe um transtorno mental subjacente e um evento estressante que desencadeia o comportamento. Os eventos estressantes incluem:

  • Morte de uma pessoa querida;
  • Suicídio na escola ou em outro grupo de adolescentes;
  • Perda de um namorado ou uma namorada;
  • Mudança de um ambiente familiar (como da escola ou da vizinhança) ou de amigos;
  • Humilhação por familiares ou amigos;
  • Sofrer bullying na escola;
  • Insucesso ou fracasso na escola, dentre outros.

Esses acontecimentos estressantes, contudo, são razoavelmente comuns entre as crianças e raramente levam a comportamento suicida caso não haja outros problemas subjacentes.

Os problemas subjacentes mais comuns são os seguintes:

  • DepressãoCrianças ou adolescentes com depressão têm sentimentos de desesperança e desamparo que limitam a sua capacidade de considerar soluções alternativas para problemas imediatos.
  • Abuso de álcool ou drogas:o consumo de álcool ou drogas diminui as inibições contra ações perigosas e interfere na antecipação de consequências.
  • Pouco controle dos impulsos: Adolescentes, sobretudo aqueles com um transtorno comportamental disruptivos (Transtorno Opositor-Desafiador, Transtorno de Conduta, dentre outros), podem agir sem pensar.

Outros transtornos mentais e distúrbios físicos podem também aumentar o risco de suicídio. Eles incluem ansiedadeesquizofrenia e transtorno de estresse pós-traumático.

Crianças e adolescentes que tentam se suicidar estão às vezes com raiva de familiares ou amigos, são incapazes de tolerar a raiva e direcionam a raiva contra eles mesmos. Eles podem querer manipular ou punir outras pessoas (“Eles vão lamentar depois que eu morrer”). Ter dificuldade em comunicar-se com seus pais pode contribuir para o risco de suicídio.

Às vezes, o comportamento suicida resulta quando uma criança imita as ações de terceiros. Suicídios amplamente cobertos pela mídia, por exemplo, como os de celebridades, são com frequência seguidos de outros suicídios ou tentativas de suicídio. De maneira similar, suicídios por imitação às vezes acontecem em escolas.

O suicídio é mais provável em famílias nas quais transtornos do humor são comuns, especialmente caso haja um histórico familiar de suicídio ou outros comportamentos violentos.

Existe alguma forma de se diagnosticar o ‘comportamento suicida’?

A identificação do risco pelos pais, médicos, professores e amigos é fundamental quando falamos de prevenção do suicídio.

Pais, médicos, professores e amigos podem estar numa posição que lhes permita identificar as crianças que podem tentar o suicídio, em particular aquelas que tiveram uma recente mudança de comportamento. Crianças mais velhas e adolescentes com frequência confiam somente nos seus pares, que devem ser veementemente encorajados a não guardar segredos que possam conduzir à morte trágica da criança suicida. As crianças que exprimem abertamente pensamentos de suicídio (como “quem me dera nunca ter nascido” ou “gostaria de dormir e nunca mais acordar”) estão sob risco, da mesma forma que crianças com sinais mais sutis, como retraimento social, fracasso escolar ou abrir mão de objetos preferidos.

Como os profissionais da saúde podem ajudar nessas questões?

Quando o assunto é suicídio na infância e na adolescência, os profissionais de saúde têm duas funções principais:

  • Avaliar a segurança e a necessidade de hospitalização da criança suicida e
  • Tratar transtornos/comórbidos, como a depressão ou o abuso de substâncias.

Como podemos prevenir os comportamentos suicidas?

Perguntar diretamente a crianças sob risco sobre ideação suicida pode revelar importantes questões que estão contribuindo para a angústia da criança. A identificação dessas questões pode, por sua vez, levar a intervenções significativas.

Além disso, as seguintes ações podem ajudar a reduzir o risco de suicídio:

  • Obter assistência eficaz para o tratamento de distúrbios mentais, físicos ou relacionados ao uso de substâncias;
  • Poder ter acesso fácil a serviços de saúde mental;
  • Obter apoio da família e do meio social no qual está inserido;
  • Aprender estratégias eficazes para resolver conflitos;
  • Ter crenças culturais e religiosas que desencorajam o suicídio.

Programas de prevenção do suicídio podem ajudar. Os programas mais eficazes são aqueles que tentam garantir que a criança conta com:

  • Um ambiente acolhedor em que tenha apoio;
  • Acesso fácil a serviços de saúde mental;
  • Uma escola ou outro ambiente social que promova o respeito às diferenças individuais, raciais, sociais e culturais.

Existe tratamento para os comportamentos suicidas?

Existem algumas condutas que favorecem a vida quando tratamos de suicídio. São elas:

  • Hospitalização, quando necessária;
  • Precauções para prevenir tentativas futuras;
  • Tratamento de qualquer transtorno que possa contribuir para o risco de suicídio;
  • Encaminhamento para a Psiquiatria e para a Psicoterapia.

As crianças que expressam pensamentos de querer se machucar ou que tentam cometer suicídio precisam de avaliação médica urgente. Qualquer tipo de tentativa de suicídio deve ser levada a sério, porque um terço das crianças que cometem o suicídio já havia tentado antes, às vezes em uma tentativa aparentemente trivial, como fazendo alguns arranhões superficiais no pulso ou engolindo algumas pílulas. Quando pais ou cuidadores diminuem ou minimizam uma tentativa de suicídio malsucedida, as crianças podem ver essa resposta como um desafio, e o risco de suicídio subsequente aumenta.

Uma vez removida a ameaça imediata à vida, o médico decide se a criança deve ser hospitalizada. A decisão depende do grau de risco em permanecer em casa e da capacidade da família de oferecer apoio e segurança física à criança. A hospitalização é o modo mais garantido de proteger a criança e é geralmente indicada se os médicos suspeitarem que a criança tem um distúrbio de saúde mental grave, como depressão.

A seriedade de uma tentativa de suicídio pode ser medida por diversos fatores, incluindo os seguintes:

  • Se a tentativa foi cuidadosamente planejada em vez de espontânea (deixar uma mensagem de suicídio, por exemplo, indica uma tentativa planejada);
  • Se medidas foram tomadas para impedir a descoberta da tentativa;
  • O tipo de método usado (usar uma arma, por exemplo, tem maior probabilidade de causar a morte do que engolir pílulas);
  • Se uma lesão foi de fato provocada;
  • Qual era o estado mental da criança quando houve a tentativa de suicídio.

É crucial distinguir a intenção séria das consequências propriamente ditas. Adolescentes que ingerem pílulas inofensivas que eles acreditam ser letais, por exemplo, devem ser considerados sob risco extremo.

Se a hospitalização não for necessária, as famílias das crianças que retornam para casa devem se assegurar de que armas de fogo são retiradas da casa e que medicamentos (incluindo medicamentos sem receita) e objetos pontiagudos são tirados ou trancados em um local protegido. Mesmo com essas precauções, a prevenção do suicídio pode ser muito difícil, e não há medidas com garantia de sucesso.

Se a criança tem um transtorno que pode contribuir para o risco (como depressão ou transtorno bipolar), os médicos tratam esse transtorno, mas esse tratamento não elimina o risco de suicídio.

Os médicos geralmente indicam as crianças para um psiquiatra, que pode oferecer o tratamento medicamentoso adequado, e para um psicólogo que pode oferecer tratamento psicoterapêutico como, por exemplo, a Terapia Cognitivo-Comportamental. O tratamento é mais bem-sucedido se o médico acompanhar o caso.

Valeska Magierek. Formada em Psicologia pela UFSJ, com especialização em Neuropsicologia pela FUMEC e mestrado em Psicobiologia na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP); atua há mais de 20 anos na área de Psicologia Infantil e Neuropsicologia; atualmente trabalha com atendimento clínico no Centro AMA de Desenvolvimento em Barbacena, como instrutora de cursos e palestrante.