Dez estratégias eficazes no tratamento do TEA

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1. Crianças com TEA geralmente têm alteração na percepção sensorial. Cuide do ambiente!
As hipersensibilidades sensoriais são bastante frequentes em crianças com TEA. Elas podem aparecer
como sensibilidade aguçada a sons (ruídos de liquidificador, máquinas de lavar, tons altos de voz, dentre
outros), sensibilidade a tecidos e etiquetas, sensibilidades gustativas, com restrições alimentares
(preferência por algum tipo específico de alimentos, escolhas alimentares determinadas por texturas ou
cores ou temperatura, etc.), sensibilidades à luz ou a tons específicos, sensibilidades olfativas que podem
cursar com as restrições alimentares (não gosta do cheiro da carne, do cheiro de determinadas frutas, etc.).
Sendo assim, devemos prestar atenção àquilo que a criança nos sinaliza: ela pode ficar mais irritadas
ou até mesmo chorosas e agressivas diante de um som, fazer vômito ao sentir o cheiro ou provar algum
tipo de alimento, evitar alguma roupa ou tecido.
Observe o comportamento e as escolhas que a criança faz! Essas informações são muito importantes
para a reabilitação. Mas não force situações! Nas reabilitações essas questões são tratadas com boa
resposta.
Evite expor as crianças com TEA a experiências desagradáveis. Outros aspectos do desenvolvimento
podem ser piorados com manejo inadequado de estímulos.

 

2. Linguagem e vocabulário são grandes desafios! Estimulação em casa e um fonoaudiólogo são essenciais!
A Linguagem é muito importante para o desenvolvimento de crianças com TEA, pois precisamos de
um sistema de comunicação muito eficaz que envolve desde o contato visual, a compreensão do que lhe é
dito até o estabelecimento da fala como expressão.
Nem toda criança com TEA fala. Alguns deles levam mais tempo para se comunicar; alguns utilizam
as ecolalias, que são as repetições de palavras, pedaços de frases, falas de personagens e tantas outras
variações, chegando às falas bastante rebuscadas.
Estimular a Linguagem, de forma geral, é fundamental, tanto em casa quanto com o fonoaudiólogo
que poderá orientar a família de forma mais eficiente.
Caso a criança não fale ou tenha muita dificuldade no estabelecimento da comunicação, estratégias
de comunicação alternativa precisam organizadas, de acordo com as características, necessidades e perfil
dela.
Sempre oriento as famílias a melhorarem o contanto visual com suas crianças. As pessoas diferentes
do convívio da criança também precisam compreender suas demandas, necessidades e emoções!
Sempre recomendo que a família procure por um fonoaudiólogo com experiência em TEA, a fim de
intervirmos de forma eficaz e eficiente.

 

3. Pessoas com autismo pensam concretamente! Seja direto, objetivo, use jogos, simulações.
Ao contrário dos que as mídias veiculam de maneira distorcida, nem todas as crianças com TEA têm
alto QI ou são superdotados. Na verdade, muitos deles apresentam potencial cognitivo abaixo do esperado
para suas idades e escolaridades.
E uma das características dentro do universo cognitivo dessas crianças é o pensamento concreto.
Aquele tipo de pensamento que precisa de um objeto, de regras claras, de falas claras, sem rodeios e menos abstrações. Eles têm mais dificuldades em compreender piadas e mensagens implícitas.

Desta forma, seja curto, claro e objetivo com a criança com TEA. Utilize de regras e ordens curtas e
claras. Certifique-se de que ela tenha entendido e repita quantas vezes forem necessárias.
Solicite também orientações específicas aos especialistas que atendem sua criança.

 

4. Possuem dificuldade para expressar sentimentos e pensamentos. Esteja atento aos
comportamentos!
Crianças com TEA têm mais dificuldades em expressar e entender sentimentos e emoções. Esta
característica também depende das comorbidades que vêm juntas com o TEA. Mas todas elas possuem sua
forma de expressão, só precisamos torna-las mais funcionais.
Neste sentido, a Psicologia é fundamental no manejo comportamental. Existem técnicas e manejos
especializados que ajudam a criança a se adaptar ao meio em que ela vive.
É muito importante também o ajustamento familiar, uma vez que a criança reproduz o cenário
doméstico, o que pode facilitar ou dificultar o comportamento da criança.
Vale à pena lembrar que não há remédios que ‘consertem’ comportamentos. Comportamentos são
ajustados através de restruturação ambiental e familiar, além da estruturação de funcionalidade dentro do
desenvolvimento da criança.
Também vale lembrar que é importante buscar por um psicólogo experiente, que trace um plano de
ação funcional e real, sem propostas mirabolantes e impossíveis de serem alcançadas.

 

5. Maior orientação pelo visual!

 

Se a comunicação como um todo estiver difícil, busque auxílio em estratégias visuais. De forma geral,
as crianças com TEA possuem mais facilidade para compreender aquilo que veem. Assim, as técnicas de
comunicação alternativa, adaptadas às demandas de cada criança, podem favorecer o desenvolvimento
global.
Os especialistas envolvidos podem ajudar nesta questão, a fim de que o ambiente doméstico também
seja favorecido, ao mesmo tempo em que favoreça a criança.

 

6. Use das afinidades (talentos) para estimular.

 

Toda criança com TEA tem um assunto de interesse: dinossauros, plantas, personagens, carros,
literatura, letras, números… uma infinidade de interesses que podem auxiliar nas reabilitações que
precisam ser realizadas.
Cabe ao especialista, juntamente com a família, identificar o objeto de interesse, habilidade ou
afinidade, e direcionar as reabilitações, a fim de que as habilidades que necessitem de intervenção possam
ser trabalhadas de forma mais prazerosa e efetiva para a criança.
Existem casos em que se é mais difícil identificar os interesses e habilidades? Sim, existem casos mais
graves em que fica mais difícil estabelecer um ponto de partida. Esses casos, geralmente, são
acompanhados de comorbidades como a Deficiência Intelectual (ou o antigo Retardo Mental), o que
dificulta muito o trabalho de todos os especialistas. A identificação e o mapeamento rápido do padrão
cognitivo, além de nortear todo o tratamento, traz também informações importantes para todos os
especialistas.
Em casa, os interesses e habilidades também podem ser utilizados como pontos de partida para se
alcançar as metas traçadas nas reabilitações.

 

7. Autistas gostam de carinho.

 

Possuem dificuldade em demonstrar carinho já que existe
comprometimento na linguagem, na interação social e hipersensibilidade. Mas podem ser afetuosos!
Há um outro mito que ronda as crianças com TEA e que diz que elas não gostam de carinho e de afeto.
Esta não é uma verdade! Crianças com TEA podem ser muito afetuosas, amorosas e gentis!
Este padrão de emoção e comportamento depende de algumas variáveis, como por exemplo, a forma
como são tratadas. Há também aqueles casos em que a agressividade pode se constituir numa forma de
comunicação (uma forma negativa e pouco eficiente de comunicação), ou numa reação sensorial.
Existem casos muito graves de agressividade e autoagressão que precisam de condutas específicas,
mas nem toda criança com TEA é como aquela que vimos nos vídeos na Internet.
Sempre orientamos as pessoas a procurarem fontes seguras de informação e a não se basearem em
contos de Internet. Cada criança é uma e precisa ser compreendida em seu contexto específico.

 

8. O contato com animais é benéfico!

 

O contato com animais sempre é benéfico, para todas as pessoas, pois auxiliam no estabelecimento
de comportamentos de cuidado, responsabilidade e interação.
Nem todo mundo gosta de animais. Não tem problema! Cada ser é livre para fazer suas próprias
escolhas. Mas as crianças com TEA podem ser muito beneficiadas com o convívio com animais.
A família e os especialistas podem definir, a partir do padrão de demanda e de comportamento de
cada criança, o animal que mais poderá beneficiar a criança: um gatinho, um cachorrinho, um peixe, dentre outros.
Há cachorros, por exemplo, muito dóceis que são utilizados nos processos de reabilitação e que
trazem excelentes resultados para o desenvolvimento da criança.
Mas a adoção de um animal, em casa, deve ser muito bem avaliada porque ele não pode ser
‘descartado’ caso haja dificuldades na adaptação ou no manejo.

 

9. Tente identificar o que inicia as estereotipias!

 

As estereotipias são descargas motoras que acontecem quando a criança está ansiosa (quando está
eufórica, triste ou feliz). São os flaps (movimentos de mãos), rodopios, corridinhas, caretas, dentre uma série de outros tipos.
Não há medicamentos que façam as estereotipias desaparecerem; além disso, somente o médico
pode avaliar a necessidade ou não de medicação. Há medicamentos que utilizados para outras questões
podem diminuir as estereotipias.
Mas o controle da ansiedade continua sendo a forma mais eficaz de controle das estereotipias, pois
mantém a criança mais organizada.
Assim, a orientação é de observar o comportamento da criança, identificar os gatilhos que levam à
ansiedade e consequentemente às estereotipias e manejar o comportamento. Identificando esses gatilhos,
podemos agir preventivamente no manejo comportamental de forma a minimizar o efeito delas no
desenvolvimento global da criança.

 

10. Acompanhamento com equipe interdisciplinar é fundamental para melhoria dos sintomas,
interação e autonomia!

 

As reabilitações multi e interdisciplinar visam melhorar e favorecer o desenvolvimento global da
criança. Como não há cura, por não se tratar de uma doença, as reabilitações visam os ajustes ambientais,
comportamentais, psicopedagógicos, dentre outros, para a melhoria da qualidade de vida da criança.
Sendo assim, é de suma importância que a família também colabore para e nas reabilitações de suas
crianças. Os especialistas, sozinhos, não conseguem resolver todas as questões. Se a família não favorecer e seguir fielmente as orientações dos profissionais envolvidos, todo o esforço será em vão e a única
prejudicada será a família.
Portanto, cada um precisa fazer a parte que lhe cabe no processo de reabilitação da criança com TEA.

 

Valeska Magierek. Formada em Psicologia pela UFSJ, com especialização em Neuropsicologia pela FUMEC e mestrado em Psicobiologia na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP); atua há mais de 20 anos na área de Psicologia Infantil e Neuropsicologia; é diretora clínica do Centro AMA de Desenvolvimento em Barbacena.