Chamamos de inteligência a capacidade de pensar, raciocinar, aprender, compreender e resolver problemas. A capacidade de extrair informações de diferentes fontes, de aprender com a experiência, de adaptar-se ao ambiente, de compreender e utilizar corretamente o pensamento e a razão, de armazenar e processar informações, de se perceber como uma pessoa e de decidir. O conceito de inteligência ainda abarca a capacidade de pensar de forma abstrata, raciocinar rapidamente e resolver problemas sem depender de conhecimentos prévios. A tudo isso chamamos inteligência.
A inteligência no autismo pode variar de superior, mediana e deficiente intelectual. Ou seja, uma pequenina porcentagem das pessoas com TEA tem QI alto (coincidindo com as Altas Habilidades); parte tem uma inteligência mediana e uma porcentagem importante, cerca de 70%, apresenta algum grau ou nível de deficiência intelectual. E a forma como a inteligência se apresenta nessas pessoas determinará as condutas necessárias. Ou seja, a eficácia dos tratamentos está associada também ao nível de inteligência.
Como saber o nível de inteligência das pessoas, e mais especificamente das pessoas com TEA?
Diferente do que muita gente acha ou pensa, a inteligência, ou o perfil cognitivo mais apropriadamente falando, pode ser medida com fidedignidade e seriedade. A Neuropsicologia possui instrumentos de avaliação eficientes para identificar e traçar o perfil cognitivo da pessoa com TEA (ou com qualquer outra condição). O neuropsicólogo é o especialista indicado e apto a realizar o processo de avaliação das funções cognitivas, rol em que a inteligência é apenas um de várias outras habilidades. E, uma vez traçado o perfil cognitivo, as condutas a serem adotadas seguirão um fluxo norteador importantíssimo para o desenvolvimento daquela pessoa. No processo de avaliação neuropsicológica identificamos pontos fortes e pontos a melhorar em busca de maior e melhor adaptação diante das limitações que o próprio autismo traz.
Chamo a atenção da utilização de mais de um instrumento de avaliação e também o fato da condução por um profissional preparado tecnicamente para tal.
Não se faz avaliação de inteligência em uma consulta rápida ou com o uso de só algum teste.
Os testes indicados para avaliar a inteligência são validados pelo Conselho Federal de Psicologia e de uso restrito dos Psicólogos e Neuropsicólogos.
E quanto ao fato do mito de que todo autista é muito inteligente. Será que isto é real? Esta informação não é verdadeira e, de certa forma, ocasiona um desserviço à população de forma geral. Como já sabemos agora, a maior parte das pessoas com autismo apresenta algum nível de déficit intelectual, que pode variar de leve a profundo, determinando condutas e prognóstico. A lenda que ronda a inteligência no autismo se deve a casos isolados e que não acontecem com tanta frequência como imaginamos ou nos fazem acreditar. Ouço muitas mães dizendo que o filho ou filha é muito inteligente, mas não conseguem se comunicar adequadamente, aprender o conteúdo da escola, aprender tarefas simples do dia a dia, a utilizar o banheiro de forma adequada e etc.
O que muito se confunde com inteligência é o chamado hiperfoco: a pessoa sabe muito de um determinado assunto. E só. Ela não consegue expandir nem extrapolar esse assunto. A sensação que temos é de que a pessoa gira em círculos, com o mesmo assunto, sem conseguir contextualizar aquilo que ‘aprendeu’ com o mundo real.
O perfil cognitivo no TEA pode favorecer ou não o desenvolvimento da pessoa. Na prática vemos que quanto mais baixo ou inferior o perfil cognitivo, mais dificuldades a pessoa terá na sua vida. O perfil de inteligência inferior também está relacionado com a presença e a eficiência ou não da linguagem, com o ajustamento comportamental (ou a falta dele) no meio em que vive, a padrões de agressividade e/ou de auto agressividade, à possibilidade ou não de aprendizagem dos conteúdos escolares e etc.
A partir do perfil cognitivo, temos condições de avaliar se e quanto de suporte a pessoa com TEA necessitará na sua vida; se ela terá condições de ter ou não uma vida independente; se conseguirá trabalhar para se sustentar e etc.
O perfil cognitivo é muito mais do que um simples teste de QI que vemos aos montes nas redes sociais. E ele também é muito mais do que a maioria considera inteligência quando, na verdade, é puramente um hiperfoco sem as dimensões de alcance da inteligência real.
No livro “TEO: Um olhar além do transtorno do espectro autista” abordo questões centrais do universo do autismo e reforço a importância de se conhecer a fundo a pessoa para além do seu diagnóstico.
Caso você tenha dúvidas sobre este assunto ou precise fazer uma avaliação cognitiva no seu filho, entre em contato conosco: (32)98508-4334
Valeska Magierek – Neuropsicóloga
