Segurança Psicológica: da teoria à prática

Você conhece o termo Segurança Psicológica?

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Você já ouviu falar sobre Segurança Psicológica?

De acordo com o cientista social e consultor organizacional, Timothy R. Clark, a segurança psicológica é uma condição na qual você se sente incluído, seguro para aprender, seguro para contribuir e seguro para desafiar o status quo- tudo sem medo de ser envergonhado, marginalizado ou punido de algum modo. 

O termo é muito utilizado para o contexto organizacional, no sentido de que o ambiente de trabalho seja um lugar seguro para seus colaboradores, não só fisicamente, para além do fornecimento de EPI’S e POP’S, mas psicologicamente. No entanto, o que se percebe é que a Segurança Psicológica segue uma progressão baseada na sequência natural das necessidades humanas, tornando o assunto importante não só nas organizações, mas em todas as unidades sociais às quais pertencemos.

Dessa forma, é possível aprender sobre o assunto e criar ambientes psicologicamente seguros a partir do esquema de estágios, criado por Timothy:

1- Estágio de Segurança da Inclusão, que nada mais é do que a aceitação baseada na espécie. Um conceito simples mas que dificilmente é colocado em prática, isso porque, se na infância somos naturalmente inclusivos, com o passar do tempo, a partir de nossas falhas e inseguranças, reforçamos a exclusão aos que nos cercam.

Mas não precisa ser assim, porque a decisão básica de incluir ou excluir não é uma questão de habilidade ou personalidade, embora essas coisas possam melhorar sua capacidade de inclusão. É mais sobre intenção do que técnica. Incluir outro ser humano deve ser ato de prejulgamento com base no valor dessa pessoa, não um ato de julgamento com base em seu mérito. O valor precede o mérito, e assim não deve existir balança para pesar caráter, personalidade, virtudes, habilidades ou qualquer outra variável demográfica com objetivo de mensurar o merecimento da inclusão.  

Assim, a definição de respeito neste estágio é simplesmente respeito pela humanidade do indivíduo. Com permissão para este outro entrar em sua sociedade pessoal e interagir com você como outro ser humano. 

2- Estágio da Segurança do Aprendiz, um estágio que refere-se à necessidade humana inata de aprender e crescer, de se envolver em todos os aspectos do processo de aprendizagem sem medo de ser rejeitado ou negligenciado.

Um ambiente de aprendizagem hostil, seja em casa, na escola ou no trabalho, é um lugar onde o medo provoca o instinto de autocensura e interrompe o processo de aprendizagem. 

Com a segurança da inclusão, não há nenhum requisito de participação ativa além de ser humano e cortês, mas com a segurança do aprendiz, você deve se colocar à disposição para fazer perguntas, solicitar feedback, apresentar ideias, experimentar, cometer erros e até falhar.

Neste estágio, o respeito pela necessidade inata de aprender e a permissão para o indivíduo se envolver nos aspectos de aprendizagem, resultam no incentivo a aprender em troca de engajamento no processo de aprendizagem. 

Assim, o imperativo moral  para garantir a segurança do aprendiz é agir primeiro incentivando o aluno a aprender, tornando-se o primeiro impulsionador!

3- Estágio da Segurança do Colaborador: diferentemente dos estágios anteriores, a Segurança do Colaborador não é um direito natural. Em vez disso, é um privilégio conquistado com base no desempenho demonstrado, marcando o fim da aprendizagem e o início da atuação sólida e independente. 

Este estágio exige mais de ambas as partes, um investimento mútuo em que o indivíduo investe esforço e habilidade, e a equipe (seja família, corpo docente ou equipe de trabalho), investe apoio, orientação e direção.

Aqui, a preparação para agir cria o desejo de agir, e assim, o respeito pela capacidade do indivíduo de criar valor, somado à permissão para trabalhar com base em seu próprio julgamento e independência, resultam em autonomia guiada em troca de resultados.

4- Estágio da Segurança do Desafiador, o último e mais difícil estágio de ser colocado em prática em nossas unidades sociais, principalmente no trabalho. Esta dificuldade se deve ao fato de que o nível mais alto de segurança psicológica substitui o que normalmente seria habitado pelo maior medo.

Neste estágio, as pessoas se sentem empoderadas para desafiar o status quo, deixando suas zonas de conforto para colocar uma ideia criativa ou disruptiva na mesa.

Uma coisa é usar seus talentos em atividades criativas ou ser curioso sobre algo por conta própria. Outra bem diferente é mirar no status quo de uma organização quando todo o sistema e a cultura o preservam. Se a segurança do desafiador não existe na organização, há um alto custo para essa criatividade e curiosidade.

A inovação é difícil por não possuir segurança contra falhas. Mas cabe ao líder eliminar o impacto social e emocional do processo. 

No quarto estágio, o respeito é pela capacidade do indivíduo de inovar,  juntamente à permissão para desafiar o status quo de boa fé (motivação pura para ajudar a melhorar as coisas), resultam na proteção em troca da franqueza. Ainda que algumas ideias sejam menos elaboradas que outras, e que alguns desafios sejam levados mais a sério do que outros, o importante neste momento é honrar o que cada um tem a oferecer independente da hierarquia. 

Por fim, com esta obra literária, somos provocados a olhar nossos próprios limites em relação ao outro, nossos preconceitos e a repensar sobre o tipo de ambiente que estamos criando para os que nos cercam. E aí, você tem colaborado para construir um ambiente psicologicamente seguro em suas unidades sociais ou participado de ambientes que prezam pela  segurança psicológica?

Se a resposta não veio de imediato, não se desespere, separamos dicas para que você possa colocar em prática a Segurança Psicológica no seu ambiente, e exerça uma gestão inclusiva e inovadora!

  1. Para criar segurança da inclusão, entender as diferenças culturais facilita as coisas, mas você não precisa ser um especialista nessas diferenças, apenas ser sensível e apreciá-las. O exercício de olhar para si mesmo e internalizar suas ações será seu aliado para o primeiro estágio da Segurança Psicológica. 

Assim sendo: comece a trabalhar seu autoconhecimento, somente através dele conhecerá suas potencialidades, faltas, resistências e até mesmo seus preconceitos. O processo de autoconhecimento possibilita também a conquista do amor próprio, extremamente importante para este estágio, uma vez que pessoas com baixa autoestima têm dificuldade de serem inclusivas. E esta busca pode ser através de leituras, análise pessoal/ terapia, acompanhamento com coach executivo focado para sua principal queixa…Aqui, o objetivo é que o trabalho comece por quem deseja incluir. 

  1. Outra prática facilitadora no estágio de segurança da inclusão, é realizar atos de serviço para os outros, especialmente para aqueles que você luta para incluir, isto é: dê às pessoas a oportunidade de praticar a inclusão. Teste criar equipes diversas e atribua indivíduos a variados relacionamentos de orientação entre pares. Essa estratégia tem como apelo a afirmação do valor individual de outros seres humanos, através de uma prática que exige o esforço sério com intenção real. Na proximidade em viver, trabalhar, comer e respirar juntos, é que finalmente surgem a consideração e o afeto. Se você não se sente da maneira que deseja sentir, ou que deveria sentir, em relação a um indivíduo ou grupo, a passagem de tempo não mudará isso, mas suas atitudes, sim. 
  2. Para inserir ou reforçar a segurança do aprendiz, é importante organizar uma rotina de feedback, visto que  é uma ferramenta indispensável para que os colaboradores saibam em quais pontos podem melhorar e que há liberdade para contribuir com a equipe. Por isso, o ideal é que o feedback faça parte da cultura organizacional e seja aplicado continuamente de tempos em tempos, seja a cada quinze dias, mês a mês ou como fizer mais sentido. O ponto-chave é: lideranças e funcionários devem se sentir confortáveis para dar retornos sobre os trabalhos um dos outros. 
  3. Para que o aprendiz possa agir como tal, com liberdade para perguntar e participar dos processos de aprendizagem, é fundamental a postura ativa do líder, pois é ele quem criará uma base de confiança, apoio e encorajamento. Neste processo, é importante desfazer de rótulos criados a partir da aptidão dos indivíduos demonstrada em um primeiro momento e olhar para o  potencial.  O desafio aqui é desenvolver uma sensibilidade social capaz de monitorar tanto o conteúdo quanto o contexto, tornando-se capaz de interpretar até o que não é dito pelo aprendiz. 
  4. O terceiro estágio da Segurança Psicológica parte da cultura de feedback bem estabelecida, pois agora, além das trocas sobre pontos fortes e pontos a desenvolver, os indivíduos precisam se sentir seguros para participar ativamente das mudanças. Para isso, busque incluir os colaboradores nas tomadas de decisões para que todos possam expor suas opiniões antes de uma decisão ser tomada, deixe claro o convite para contribuir que você estende a cada pessoa.
  5. Escute com atenção, fale por último. Em uma fase que valoriza a participação, é importante que o líder seja o último a opinar, isso porque ao falar primeiro quando detém o poder posicional acaba por censurar sutilmente sua equipe. 
  6. Para a Segurança do Desafiador é importante não transformar o desafio ao status quo em algo emocionalmente custoso, por isso, peça aos membros de sua equipe que desafiem coisas específicas e discutam ideias por mérito.
  7. Nem sempre todas as sugestões serão acatadas, quando for rejeitar alguma ideia de um membro de sua equipe, mostre sensibilidade explicando o motivo. Seu retorno atencioso irá encorajar o indivíduo a continuar se manifestando.
  8. Às vezes, o líder enxerga coisas que a equipe não consegue ver. Às vezes, o contrário acontece. Se o líder guardar zelosamente suas próprias ideias, a equipe fará o mesmo. Manifeste suas ideias sem exibir orgulho de autoria e veja o exemplo se multiplicando!

Promover a Segurança Psicológica demanda esforço e resiliência, mas não precisa ser um processo solitário. Conte com profissionais que possam te auxiliar desde a busca pelo autoconhecimento, ao desenvolvimento de habilidades comportamentais complexas e específicas para cargos de liderança e gestão. 

 

Yamai Karen Oliveira de Jesus

Psicóloga- CRP 04/69503

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