Existe alguma pré-disposição ou fator biológico para a maior ocorrência do TEA no público masculino?
A literatura nos fala que o TEA continua afetando mais o gênero masculino do que o feminino, sendo que no 1º grupo, o masculino, as características podem ser mais evidentes desde muito cedo, o que pode não acontecer com o grupo feminino, visto haver estratégias comportamentais que podem dificultar seu reconhecimento inicial, principalmente para aqueles pouco experientes.
Ainda neste sentido, o da distribuição do TEA entre os gêneros masculino e feminino, a teoria genética subjacente a ele explica essa diferença entre eles.
A genética tem um papel fundamental no TEA, cerca de 80-90%, mas não é o único. A ele se juntam os fatores ambientais e as síndromes genéticas.
Na prática continuamos a encontrar diagnósticos de TEA mais em homens do que em mulheres. Mas consideramos, especialistas em desenvolvimento humano, que haja casos femininos sub diagnosticados, não diagnosticados ou, ainda, diagnosticados erroneamente, o que traz impacto importante na análise de todos esses dados.
Outra informação importante a ser esclarecida é o porquê do TEA possuir mais diagnósticos em crianças do que em adultos.
A explicação para este fenômeno é complexa. Temos muitos fatores envolvidos nessa dinâmica:
- Fator histórico: O autismo foi identificado e nomeado pela 1ª vez em 1943, período que o acesso das mulheres à saúde era ainda mais precário, o que poderia, àquela época, justificar o maior número de autistas do gênero masculino.
- Fator social: A infância passou a ter conotação importante a partir do Século XVIII, época em que essa fase do desenvolvimento humano começou a ser notado e visto. E, à medida que padrões diferentes começaram a ser notados, estudiosos mostraram maior interesse pelo que viam diferente, muito embora pouco ou nada soubessem a respeito de diferenças. A genética e a própria medicina ainda engatinhavam e sequer imaginavam alterações desse porte.
- Fator clínico: Agora, transcorridos 82 anos após Kraepelin ter notado e identificado essa alteração no desenvolvimento, que hoje chamamos de TEA, é que temos especialistas realmente voltados para seu deciframento. Aliado a isso temos, somente hoje, instrumentos que possibilitam o estudo e favorecem o diagnóstico acertado do autismo.
Assim, é totalmente compreensível que haja mais criança do que adulto e/ou idoso identificado com a condição. Embora atualmente esteja havendo maior procura pelo diagnóstico tardio por adultos e idosos. E, muitas vezes, eles nos procuram por que leram sobre o assunto em algum lugar e se reconheceram dentro do TEA, ou porque alguém próximo (um filho, um sobrinho, um neto, etc.) receberam esse diagnóstico e também se reconheceram nele. Desta parcela sobressaem aquelas pessoas que foram diagnosticadas há tempos, tratadas há tempos, mas que hoje conseguem se entender como TEA e reconhecem ter sido tratadas com diagnósticos equivocados a vida toda.
Assim, a melhoria no acesso à informação, bem como a melhoria na formação dos especialistas, bem como dos instrumentos de avaliação tem trazido novas perspectivas, tanto no diagnóstico, quanto no manejo do TEA no mundo todo.
Valeska Magierek – Neuropsicologa
@amadesenvolvimento
